Se apresentar o Teatro 

melgaciano como fruto de expressiva originalidade criadora é o ponto capital de nossa exegese:

Melgaço é Melgaço

- a melhor das definições! Nenhuma superior a essa tautologia.
Seu clima é o da genialidade criadora. É o poeta que faz a poesia. É o dramaturgo que faz o teatro. É a ‘inspiração’ que conduz o autor à obra. Toda lei é supérflua, secundária, acidental. A lei suprema é a ausência de lei, no ato da criação. Depois, é outra coisa. Depois do ‘Sopro’, então a lei, sob todos os aspectos, vai ressurgir como um dos pólos capitais da vida e portanto da arte.


O diálogo Liberdade-Lei,
como
o diálogo Homem-Deus,
como
o diálogo Passado-Futuro,
como
o diálogo Amor-Dever
e outros semelhantes, tudo isso vai reaparecer e constituir mesmo a trama dessa imensa tapeçaria em inúmeros quadros. Mas no princípio era o verbo, como
‘In principium erat Verbum’. Isto é, a arte repele a verdade em sua mais pura expressão. Assim como, tomando a metáfora da mística cristã, o Cristo é o Verbo de Deus e esse Verbo é a fonte da Vida. Assim também a Palavra é o verbo do espírito e a arte a função do verbo - decorrência desse verbo - que pode assumir vários aspectos e servir-se de muitos instrumentos, inclusive da ‘palavra’ para o ‘poeta’.
O verbo do artista é como o Verbo de Deus: o espírito criador, em Deus absolutamente desligado de qualquer limitação (e portanto ‘liberdade pura’) é, no artista, limitado apenas pela natureza, contra a qual vive em luta perene, dada a impossibilidade de ‘criar do nada, como Deus’.
Impossibilidade realmente?
Essa luta é consubstancial à obra do artista. Mas sua função é a criação pura, nos limites de sua natureza. De modo que, para Otacílio, cada artista nasce com o poder de recriar o mundo. E assim ele o fez lançando ao mundo contemporâneo uma obra que é, ao mesmo tempo, a expressão de uma personalidade desligada de todo o convencionalismo e libertada de todas as regras ‘exteriores’, mas dotada do espírito de ‘objetividade’. Seu paradoxo, sua maior originalidade talvez, será precisamente essa coexistência entre uma liberdade criadora que impõe o seu próprio estilo, pois parte, antes e acima de tudo, ‘de si próprio’, e ao mesmo tempo, uma obra que procura avidamente o objeto, o não-eu, o outro, a verdade, enfim. A verdade e a totalidade. Daí serem os pontos cardeais do teatro melgaciano: o homem e Deus, num sentido, e o Ocidente e o Oriente, em outro, de modo a compreender o mundo natural e o sobrenatural, conjugados e fundidos; assim como o homem em todas as formas de civilização e em todos os continentes, do Ocidente ao Oriente, segundo uma terminologia insuficiente, que quer dizer: ‘Universalidade’.
No centro de sua obra não está o seu ‘eu’ criador, nem o universo. Está o Homem unido ao Universo. Indissociavelmente... Esse Homem, conjunto de todos os homens, é, pois, o âmago do poliedro melgaciano.
Se escolheu o palco, como ambiente próprio de sua expressão literária, é que a Poesia - sua vocação profunda - tal como jorrava de seu temperamento tempestuoso, não se podia contentar com a expressão escrita. Era uma poesia essencialmente 'oral'. A oralidade é a sua nota capital. Poesia para ser dita e para ser ouvida. Há sem dúvida, em Melgaço, o mesmo sentido profundo de 'mistério' essencial a todas as coisas. E precisa de ser lido, como já disse, antes ou depois de ouvido, para que esse mistério não se confunda com qualquer esoterismo. Jacques Madaule nos lembra como os maiores poetas da humanidade, um Homero, um Virgílio, um Dante viveram 'no fim' de uma fase de civilização e contaram a súmula dessa civilização extinta ou moribunda. Cremos que, através das tramas melgacianas, 'estamos em face de uma gigantesca Suma poética, em que o futuro virá procurar a imagem dos nossos tempos... É a epopéia dos tempos modernos pois já entramos em uma nova idade do mundo.'
Reproduziremos aqui parte de um depoimento do próprio Otacílio Melgaço - dado a 'Cia. Imago Dei' - em que faz menção direta a Ezra Pound e nos sugere uma saraivada de inquerimentos:
" 'Anatole France, criticando os teatrólogos franceses, assinalou que, no tablado, as palavras devem dar tempo à ação; devem dar tempo a que os espectadores se apercebam do que está se passando.' Tal afirmação faz jus a reticentes relativismos, em minha franca opinião. 'O teatro grego depende muito do conhecimento que os espectadores ou os leitores tenham de Homero. Enquanto MATERIAL DE LEITURA não creio que os dramaturgos gregos cheguem aos pés de Homero. Mesmo Ésquilo é retórico. Mesmo no 'Agamenon' há quantidades de palavras que não funcionam como material de leitura, i.é, que não são necessárias ao entendimento do assunto. Estou convicto de que há muitos defeitos no teatro grego. Mas nunca tentaria impedir que alguém 'lêsse' Ésquilo ou Sófocles. Em última análise, penso que todo homem animado de uma razoável curiosidade literária há de ler o 'Agamenon' de Ésquilo. Mas se ele pensar no teatro como meio de expressão, verá que enquanto o veículo da poesia são PALAVRAS, o veículo do teatro são pessoas em movimento sobre o palco usando palavras.' ? 'Isto é, as palavras constituem apenas uma parte do veículo e as lacunas entre elas, ou as deficiências dos seus significados, podem ser preenchidas por 'ação' ? 'Pessoas que examinaram o assunto com critério e isenção estão absolutamente convencidas de que a máxima carga de significado verbal não pode ser usada no palco, exceto por breves instantes.' ? 'Leva tempo para que ela seja apreendida, etc' ? 'Seria injusto para um dramaturgo considerar suas PALAVRAS ou mesmo suas palavras e sua versificação como se fossem a plenitude da sua obra' ?"
Um novo sentido de 'ação' é, pois, a base do estilo melgaciano e daí a convergência dos dois afluentes de seu gênio poético, o lírico e o épico, para o grande rio dramático que vem a ser o seu teatro. Essa primazia prática da ação, diga-se desde logo, é o contrário do pragmatismo, pois aquela ação é 'a medida' da meditação. Em Otacílio a ação é o 'fruto' da contemplação, que conserva ontologicamente o seu primado, como o lirismo conserva também a supremacia, ao longo de toda a parábola dramática de Melgaço.
A escolha do teatro para a convergência das duas fontes, lírica e épica, era natural, pois teatro é antes de tudo Ação. O teatro como uma 'continuação da vida', mas não como uma 'imitação' da vida. Teatro é teatro. O espectador deve saber que não é a vida, é uma 'transposição' da vida, mas com 'sua vida própria', sua própria existência, seu 'estilo', em suma. É um ponto essencial para compreender o teatro melgaciano. Bem como a indicação do possível 'modo' de representá-lo. Não é a 'verossimilhança' que importa. Como o verossímil nem sempre é verdadeiro. O teatro é o teatro. A vida é a vida. O teatro, como a poesia ou o romance, representa a vida, mas com sua própria vida, com o seu próprio modo de viver e de dizer. Essa 'autonomia' não é independência, nem muito menos hostilidade para com a vida e para com a verdade. Tudo é 'transposto' para o palco, a verdade e o erro, o bem e o mal, a ordem e a desordem, de modo que 'vida' e 'teatro' estão em íntima correlação. O poeta-dramaturgo está sempre 'em relação com' a vida. Porém não 'finge' de vida. Possue a sua 'vida' própria.
O estilo Poético-Dramatúrgico de Otacílio nos leva ao conceito de Palavra-Ação. Assim como a vida termina na 'ação cênica', no teatro melgaciano, essa ação, por sua vez, se realiza plenamente na 'palavra'. A palavra, a enorme fluência verbal vai desde a desarticulação da mesma até o emprego de termos arcaicos e raros, sem falar na extraordinária profusão verbal, em que ordem e desordem intencionalmente coexistem. Chegamos ao paroxismo do emprego de palavras que perderiam o sentido para voltar a ser 'sons' como quando Melgaço utiliza ou cria léxicos sânscritos, gregos ou latinos.
O encontro com a 'Palavra', enfim, vai ser a grande revelação do poeta, em face de si mesmo. Eis como o poeta explica a fonte de sua poesia, o inconsciente, o que vem d'além da inteligência, do fundo indistinto de todas as faculdades, pois a poesia é fruto sensível e verbal do 'homem todo' e não desta ou daquela faculdade particular.
Traçando um paralelo barjoniano quando nos introduz à obra claudelina, "Otacílio Melgaço transita entre a alegoria e o símbolo. Concretiza abstrações e também, paradoxalmente, parte do real para atingir 'a idéia'. É preciso advertir aqui o caráter eminentemente sensual da poesia-em-ação de um Melgaço, as palavras, para ele, antes de instrumentos de significação, são realidades concretas e vivas, das quais prova e frui, na boca e na alma, o sabor e a imanência, antes de lançá-las no papel. No momento de seu encontro com o real, nenhuma consideração intelectual vem alterar no poeta dramático a virgindade da visão.
Como alegórico, aproxima-se da figura de um 'creador'. Busca traduzir em 'fórmulas' diretamente inteligíveis (a palavra, a ação, a cenografia etc) aquilo que permaneceria inacessível ou mesmo inimaginável a nosso 'afunilamento intelectivo'. Simultaneamente, não abdica de outra não menos relevante 'via de acesso': nossa perceptividade, intuitividade, degustar 'sensacional'. Isto é, dar à luz o considerado 'abstracionismo' é uma prova cabal de sua ascendência artística e necessariamente flertante com o Numinoso. Muito além de flertante, em conjunção, e ainda mais, irrevogavelmente Una.
Por outro lado, realista, mas realista total, seu simbolismo não saberia, entretanto, ater-se à apreensão direta do objeto, que constitui o primeiro tempo de seu movimento. Ambicioso de uma presa menos magra, rebelde a limitar a verdade das coisas que nos podem ser reveladas pelos nossos sentidos e definidas por nossa razão, vemo-lo aventurar-se mais longe, em busca de melhor conhecimento. Mas é ainda em um realismo autêntico que se vai inspirar o método desta mais exigente investigação. Longe de enriquecer gratuitamente, como se pretende, este dom inicial de todo um conjunto de atributos, lançados no arsenal de sua imaginação, vemos o poeta cavar, sempre mais adiante, ainda o tufo da realidade, sequioso primeiro de instruir-se, de progredir com respeito neste domínio reservado, até lhe ser dado por fim atingir, para além da simples superfície, a zona profunda onde jaz o mistério vivo do que é criado. É lá que cada realidade, objeto de seu férvido estudo, lhe vai aparecer, nimbada de uma franja espiritual, através da qual seu ser se prolonga. Eis o dramaturgo poeticamente instalado, não mais no plano do simples fenômeno, não mais - e nunca - no plano da noção que empobrece, ressequida e mutilada, mas no segredo mesmo da vida, onde tudo são ligações, contatos, trocas.
É então, e só então, que, melhor instruído quanto à verdade do mundo e quanto à maneira pela qual todas as coisas coexistem e 'co-nascem', cada objeto, assim reconhecido em suas ligações com o todo, vai aparecer-lhe 'significante', 'símbolo', carregado, ou melhor, participante de um valor que o ultrapassa. A afirmação deste valor simbólico não é, então, em nada antecedente ao exame objetivo da realidade. Longe de atentar na verdade das coisas e dos seres, o olhar do simbolista Otacílio a restaura em seu clarão original, a reconstitui, a ajunta. Quanto mais um ser é verdadeiro, vivo, 'real', mais ampla lhe aparece sua 'participação' nas riquezas do ser universal, e, portanto, mais cresce sua capacidade de significação.
Também o universo dos simbolistas, e o de Melgaço em particular, não deveria ser, sem dúvida alguma, senão injustamente considerado como uma espécie de supra-estrutura intelectual, vinda de fora, gratuitamente, a ajuntar-se ao edifício do 'real'. Seria bem antes - sem querer atribuir a esta palavra um sentido de menos valor - como uma infra-estrutura, perfeitamente objetiva, que uma escavação paciente trouxe à luz. Negar a existência desta última é condenar-se a ver a 'realidade' permanecer tão inexplicável quanto o seria, biologicamente, a planta, sem o reconhecimento da raiz invisível, através da qual se realizam suas trocas com as seivas da terra nutriente. Vê-se que estamos longe da ideologia, mas em plena história viva. Dá-se o mesmo quanto à personagem simbólica. Aqui também vai verificar-se este movimento que procede do concreto em direção à idéia. A respeito destas personagens, de que é Otacílio - ele mesmo - o demiurgo, pretende-se gerar conformes ao verdadeiro, o autor de teatro não se comportará diferentemente do que o poeta (como, aliás, deixamos claro o fato de que ambos são indissociáveis), posto em presença do universo realmente criado. Melgaço olha antes e escolhe as figuras de suas personagens, segundo a verdade mais enraizada em seu ser. Ao vê-las agir e viver é que nos é dado assistir à gênese de sua simbolicidade.
Quem não tenha um mínimo de 'ouvido musical', como se diz, não poderá entender O.M. Porque sua frase é antes de tudo um canto, que, por seu valor de encantamento, predispõe o coração a ouvir o segredo do qual ela está repleta. Ante uma página de Otacílio, os mais desavisados se encontram como o melômano bisonho ante o preto e o branco da partitura. Esta, tocada pela orquestra, começará a revelar-lhe seu sentido. É hierático sentir seu movimento e cadência, e assim, nos 'entregarmos' à sinfonia na magicidade de cada nota, tal como também é mister 'deixarmo-nos levar' pelo fluxo visionário dos versos melgacianos."
Essa dramaturgia poética, filosófica, biológica e teológica - pois inspirada ao mesmo tempo na respiração do corpo, na meditação especulativa e na forma da palavra 'polideísta', não é entretanto de molde a manter o poeta em comunicação com o seu contemporâneo habitat. De feita que o artista, queira ou não queira, será sempre 'um solitário', e quando se trata então de um poeta que revoluciona a própria poética vivencial de seu povo, a solidão é ainda maior. Todavia, em toda história da autêntica Arte, indubitavelmente bem acompanhado O.M. já está.
Assim como o nigromante de Claudel diz ao Imperador, Melgaço acaba por, ostensiva e imanentemente, proclamar a cada um de nós: 'Magnificentíssimo, vós não sabeis falar aos Mortos, como se deve' e começa então a gargarejar, a meia voz: 'Om! a, a, i, i, u, u, ri, ri, li, li, e, ai, o, ou!... Ouve! Ouve! Eu te conjuro pela força das letras, as vogais que a alma expulsa do corpo que se abre até o fundo. As graves e as agudas, o 'a' e o 'i', e as consoantes pela quais a boca dá passagem por suas três portas, a língua, os lábios e os dentes! Ouve os elementos! Formando as letras, uma por uma, como se ensina as crianças a soletrar, eu aplico a minha boca ao teu ouvido. Ouve, morto, a língua bem viva, ouve a língua bem humana! A palavra que, na alma côncava, pensa a si mesma e produz a si mesma. Ouve e fala!'
De Ésquilo a Dante, Shakespeare a Nietzsche, Mallarmé a Beckett... a alquimia do verbo em Otacílio Melgaço reflete um mundo de influências e, no entanto, a singularidade da criação. Já que o dramaturgo brasileiro permanece sendo por toda a vida aquele que procura senão ‘dire clairement des choses obscures’?
Ou seria exatamente o contrário?



 

 

 


Cia IMAGO DEI,
adaptação do ensaio de A. Lima que exalta o autor de "L'Otage", ensaio este que nos espantou pelas similitudes para com nosso homenageado.

Séc. XXI

Agradecemos a colaboração do dramaturgo brasileiro Otacílio Melgaço.

imagodei@europe.com



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